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FESTA DE SANTO ANTÔNIO

Tine e retine, tinindo e troando,

o sino da igreja de Santo Antônio

e eu cá distante, longe, tristonho,

me vejo a escutar a retreta tocando.

 

Vivo a escutá-la ou será que é sonho?

Mas ouço, é verdade, o sino tocando,

e ouço a retreta os dobrados troando

no adro da igreja de Santo Antônio.

 

Ai, minhas festas de Santo Antônio...

As barracas na praça Bona Primo,

máquinas de descascar laranjas!

Que engenhos, meu Deus,

nunca os tinha visto antes!

 

Dias de junho, noites de junho,

os leilões, do primeiro ao dia treze,

dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três,

o Bilé gritando

e os homens arrematando...

 

Arrematando travessas de bolos,

touceiras de canas,

caixinhas de segredo,

abóboras gigantes,

sacos de feijão,

capão e galinha assados

em celofane embrulhados,

bodes, carneiros, até bois.

 

E eu olhando, só olhando,

que arrematar não podia,

mas se pudesse,

se uns trocados tivesse,

eu acabava arrematando.

 

Minha retreta saudosa,

o trombone de Mestre Zumba,

a clarineta de Miguel Rosa,

tanta valsa bonita

no trompete de Seu Catita

e na tuba de Seu Proqué,

Boi-Laranja e Cabecinha

caprichando a percussão,

ajudados no mister

pelo Raimundo Vidão. (*)

 

Que vontade, meu Deus,

de voltar àqueles dias!

As rezas na igreja,

as Filhas de Maria...

 

E o sino troante, troando,

e eu olhando, só olhando

a retreta tocando,

as matracas chamando,

o padre celebrando,

o turíbulo espargindo,

os incensos perfumando

e as pessoas rezando.

Depois, dou-lhe uma, dou-lhe duas...

e os homens arrematando.

 

Nas barracas, fritos de tripa, crocantes,

roletes de cana caiana em palitos de taboca,

pareciam flores. Flores doces.

 

Em volta, os namorados,

namorados namorando,

no céu as estrelas

de junho mais belas,

e eu olhando

a retreta tocando,

o Cabecinha no bumbo,

os compassos marcando.

***

 

No travesseiro retroa a retreta

os seus dobrados tocando,

revejo aquilo tudo,

o Cabecinha marcando,

e o Raimundo Vidão

na percussão trabalhando,

aquele céu estrelado,

aquela lua brilhando,

a alvorada na igreja,

a retreta despertando,

mas sei que não é verdade,

o que faço é viver sonhando.

 

Mas retine em sonho o sino

das novenas de Santo Antônio

e, triste, eu cá me ponho

tão longe, quase sem tino,

sem minha Campo Maior

dos meus tempos de menino...

 

(*) A relação dos instrumentistas da banda de música (que eu não conseguia lembrar, e que despertavam a cidade nas alvoradas do adro da igreja e animavam os leilões) me foi dada pelo colega e amigo Raimundo Nonato de Andrade Aragão, um preservador da memória campo-maiorense.

Texto extraído do livro "ESTRELAS NO CHÃO - Memórias", de Joaquim Pereira de Oliveira, e enviado pelo autor.