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Não fomos os primeiros
fomos porém os mais decididos.
Todos nós sabemos que
não foi Campo Maior quem por primeiro proclamou nossa Independência.
Parnaíba se antecipou a todas as todas as Vilas e também
à Capital. Mesmo diante do fato e da conclamação feita
pela Princesa de Igaraçu, a que seguíssemos o seu exemplo,
nossa gente não se prontificou ao apoio reclamado. Isto não
quer dizer que a nossa comunidade vivesse indiferente aos ideais que já
abalavam a Pátria Inteira, nem significa também que
os nossos anseios de independência tenham nascido depois, e
como fruto de imitação ao gesto dos compatrícios do
litoral.
Os sentimentos
de patriotismo se enraizavam na alma campomaiorense desde quando herdamos
de Bernardo de Carvalho o amor ao solo em que vivemos e a solidariedade
aos que convivem conosco na fraternidade do dia a dia.Demos provas de que
somos livres quando o Governador Pereira Caldas exigiu nossa participação
na continuidade do genocídio de nossos nativos, o que repelimos,
apesar das ameaças e das prisões
Vibramos com
o movimento de 1817 criando convicções que nunca mais
morreram.
Antes de os
Parnaibanos se unirem e proclamarem a liberdade que Fidié por um
pouco esmagou, no velho Surubim todos eram testemunhas dos cochichos, dos
bate-papos, dos choques de filhos brasileiros com seus pais portugueses,
das declarações abertas de tantos cidadãos que, destemidos,
conquistavam para o rompimento com o chamado jugo português
Antes que
Fidié assumisse o comando das armas e o Brigadeiro Manuel d e Sousa
Martins fosse derrotado na "malograda eleição de 7 de Abril",
já em Campo Maior fervilhavam idéias separatistas, tendo
como profetas da Independência o rábulo Lourenço de
Araújo Barbosa, os Padres Jerôrnimo José Ferreira e
Clemente Antônio Gomes e mais o irrequieto Alecrim.
Desde Janeiro
de 1822 que a subversão em Campo Maior era combatida pela Justiça
do Reino. O mentor intelectual do movimento de 19 de Outubro em Parnaíba
foi o mesmo juiz que em Campo Maior prendeu rebeldes e os denunciou em
Oeiras. Foi nossa elite que conquistou e o fez líder na outra parcela
da Comarca que dirigia. Se é verdade que não fomos os vanguardeiros,
verdade é também que nossa decisão do irrevogável,
de passo firme e resolutos até o fim.
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Isto tem uma explicação
Se querem
a explicação porque marchamos lentos e chegamos com tanta
força, observem que por trás dos fatos há um encadeamento
de situações que não nos permitiam a precipitação.
Campo Maior era no Piauí "a povoação que mais
se assemelhava às do Reino", nossos vínculos com Portugal
eram muitos estreitos. A nobreza campomaiorense estava cônscia do
que se passava nas cortes do Rio e Lisboa, pois alguns de nossos jovens
estudaram em Coimbra ou passaram temporadas na Metrópole. Assim,
vínculos territoriais e de sangue nos prendiam igualmente. Depois
de um sólido processo de conscientização, prevaleceu
o patriotismo.
Em Parnaíba
uma elite tomou posição separatista, se inflamou, empolgou,
mas não conscientizou. No momento preciso, o aproximar-se
da Tropa de Fidié lhe causou pânico e fuga, a prudência
fez retroceder; em Oeiras também uma elite na comunidade dividida
abraçou a cauda da Independência; não se inflamou
nem empolgou, mas raciocinou. Aguardou o momento oportuno - a ausência
de Fidié e a proteção que esperava do Ceará.
Não
foi assim o comportamento campomaiorense, nem esbarramos no idealismo dos
parnaibanos nem procuramos a artimanha do mais oportuno oeirense. O que
entre nós houve um verdadeiro movimento de elite e massa.
Foi Campo Maior inteira, nobres e escravos que fizemos a epopéia
do Jenipapo. Fomos ao encontro do Inimigo conscientes da disparidade das
armas, mas impelidos pela força d ideal e pela gravidade do momento
chegado. Primeiramente solucionamos o problemas interno que eram
os portugueses com quem convivíamos fazendo-os compreender que só
lhes haviam três caminhos: retornar à velha pátria,
refugiar-se no Maranhão ou aderir à nossa causa. Realizamos,
com êxito, a batalha familiar. Nossa Independência só
foi proclamada quando este problema foi resolvido.
Cônscios
da hora chegada, assumimos, e assumimos para valer. Ninguém voltou
atrás.
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Um extremado gesto
de civismo
Naquele 13
de Março, não apenas entramos em campo de batalha, oferecemos
ao Piauí e ao Brasil o mais belo testemunho de patriotismo e dignidade
cívica. "Não há na História de Independência
do Brasil um página mais épica, mais emocionante do que a
que escreveram, com sangue e bravura, aqueles homens, no dia 13 de Março
de 1823, nas margens do rio Jenipapo" (Monsenhor Chaves)
A plêiade
que naquele dia deixou o adro da Matriz de Santo Antônio em busca
do Campo do Jenipapo não foi um exército de tropas treinadas
no manejo das armas, mas o maravilhoso corpo de fazendeiros e vaqueiros,
senhores e escravos, homens de fronte encanecida e jovens de 14 anos irmanados
pela responsabilidade pátria. Para aquela marcha não houve
a costumada convocação da lei, mas o grito imperioso da solidariedade.
Todos livremente se obrigaram. Todos livremente
cooperaram oferecendo-se uns à luta e outros contratando mercenários
de guerra.
Batalha singular
aquela em que o número e o peso das armas foram anulados pela força
de um ideal que impulsionou vontades mais fortes que canhões, fuzis
e baionetas.
Não
fomos à guerra, fomos ao testemunho do sangue pois, a rigor,
não foi um encontro de armas, mas um confronto quase duelo coletivo
em que, só uma férrea decisão de homens que não
sabem retroceder, explica cinco horas de lutas em pleno sol de um Março
sem inverno.
Senhores,
eram 11 os canhões portugueses; mais de mil armas estavam nas mãos
de adestrados soldados comandados por um dos melhores Cabos de confiança
da Coroa Lusa, em confronto com gente simples habituada apenas ao manejo
do gado. E, apesar desta desigualdade, cinco horas se passaram enquanto
homens se batiam peito a peito, sob um sol causticante sofrendo cansaço,
sêde, dores, num ensurdecedor bater de armas, abafando gritos e gemidos.
A Batalha
do Jenipapo não foi uma guerra como tantas outras que se travaram
em nosso Brasil. Singular, única, teve os seus rasgos de grandeza,
como jamais se viu. Foi uma guerra de voluntários, conhecedores
de sua força e da do inimigo, realizada com plena consciência
do papel assumido e dispostos ao sacrifício de suas próprias
vidas. Quando se defrontaram legalistas e separatistas, cedo Fidié
cercou nossas tropas, mais foi cercado pela força de nossos braços
(armais mais potentes) e pela agilidade do manusear do novo tipo de armas
que, talvez pela primeira vez, se utilizou em guerra - cacete ,foice, cabo
de enxada, etc. Uma, duas, quatro, cinco horas de combate desordenado,
sem comando, sem trégua. Os homens tombavam bem mais pela
violência dos golpes que pela eficiência dos tiros, já
que o encontro foi corpo a corpo. Os canhões perderam a sua finalidade
pelo emaranhado de legalistas e separatistas. Os fuzis deixaram ser armas
de fogo para se tornarem instrumentos de defesa ante o arremesso
firme e rápido de cacetes, arma tão usual entre os homens
deste sertão.
Não
fora o gesto covarde de alguns cearenses que vendo a inutilidade
da luta, para quem era mercenário, o sol teria se posto antes que
tombasse o último herói.
Dizem os historiadores
que, ao final de tão louca peleja, fomos vencidos e se deu a fuga
dos separatistas.
Sei que parece
absurdo contestar esta afirmação, e que é temerário
para um historiador se posicionar contra provas documentais. Mas senhores,
eu que há vários anos vivo mergulhado na pesquisa histórica
e que tantas vezes tenho meditado sobre episódio do Jenipapo,
não posso admitir este ensinamento tradicional, porque o vejo em
choque com a evidência dos fatos. Com destemor repito o que sempre
tenho afirmado:
Não
perdemos a guerra nem fomos vencidos na Batalha. No campo do Jenipapo não
houve para nenhuma das partes a vitória das armas.
O que houve
e os historiadores não acentuaram foi tão somente uma trégua
forçada, com desvantagens para nós, por causa da debanda
de alguns cearenses, sem todavia uma vitória para Fidié.
E, para aqueles que intimamente sorriem de minha posição,
eu peço atenção para alguns pontos que vamos considerar.
Antes de tudo
quero lembrar que até o momento não é conhecido um
só documento de 1823 de descreva a Batalha do Jenipapo; os poucos
que dela se ocupam dão porém a entender nossa derrota. Apesar
disto, outros documentos de igual época e fidedignidade apontam
fatos que nos desautorizam esta extremada posição.
A debandada
de que nos falam os documentos foi narrada, mas não foi explicada.
Já
quase pelas duas da tarde, quando o desânimo começou a anuviar
os interesses ibiapabanos, porque, repito, alguns cearenses só lutavam
pelo soldo, surgiu para eles a única e possível solução
- romper o cerco e debandar. Num quase desespero tentaram isto e conseguiram.
Em campo limpo encontraram, sem proteção, as reservas de
munições e armas dos legalistas; agarraram-nas por paga de
seus serviços e zarparam. Como desde as primeiras horas a voz dos
chefes estava abafada pelo choque seco dos cacetes, pelo tinir de armas,
pela gritaria incitando à luta, pelo gemido dos caídos, atropelados
e em agonia, o romper do cerco e a correria logo foram imitados pelos nossos.
Um pequeno conhecedor de psicologia de massas sabe perfeitamente entender
que a imitação em movimentos de massas, particularmente quando
se está envolto em violenta excitação, é um
processo normal e inconsciente.
Passado o
ímpeto, a realidade teve que ser assumida. A maioria do que debandaram,
inconscientes do que faziam, viram logo a impossibilidade de retroceder.
Deliberaram então o único procedimento válido para
aquele momento - refazer as forças e recomeçar a luta. Não
tendo tempo a perder, decidiram que uns fossem pra Marvão, outros
pra Natal (Monsenhor Gil), outros para Oeiras em busca de reforços.
TRês dias depois, apesar de longos os caminhos percorridos, eles
estavam de volta, com o mesmo ardor, para um reencontro com o inimigo.
Novo choque choque não se deu com igual bravura porque os chamados
vencedores tinham fugido.
Para os que
ficaram no campo de luta, com o inglório título de vencedores,
apenas um alívio. Ninguém teve coragem e forças para
ir ao encalço do que debandaram ou para defender as munições
roubadas. Fidié e os seus estavam completamente exaustos.
Não tiveram ânimo nem se quer para dar sepultura aos seus
mortos. Aprisionaram os mutilados e, às pressas temerosos de uma
emboscada, se desviaram do caminho da Vila e acamparam num fazenda próxima
chamada Tombador. Aqueles que chamamos vencedores tomaram uma postura de
vencidos. O próprio Fidié narrou mas não contou as
glórias desta batalha no livro que escreveu sua façanha.
Não
poderia. Ele e seus homens não tinham condições para
realizar a marcha triunfal de ocupação da Vila, por isto
se refugiaram em uma pequena casa sem o cômodo necessário
nem mesmo para os enfermos.
Se isto basta
para mostrar que a batalha não teve vencedor, observemos o comportamento
de Fidié. A um cabo escolhido para dar ao seu Rei a posse ao menos
do antigo EStado do Maranhão, homem conhecido como "um cabo de guerra
experimentado e ferozmente fiel aos interesses de Portugal, veterano das
guerras peninsulares contra as tropas de Napoleão Bonaparte e que
serviu no exército de Wellington" , tido por alguns como vitorioso
na Batalha do Jenipapo, não poderia faltar coragem para ir ao encalço
do fugitivo, parta salvar as munições roubadas. Não
o fez porque se sentiu vencido embora só no campo de batalha.
O fato de não dar sepultura condigna aos seus heróis, de
não fazer a marcha da vitória na direção
da Vila, preferindo esconder-se na pequena casa do Tombador, deixando ao
relento tantos companheiros seus quase à morte e prisioneiros feridos,
quando na Vila tão próxima eram muitas as casas
abandonadas, são eloqüente proba de uma derrota sentida e vivida.
Não é fácil entender porque Fidié recebeu,
sem reação alguma, os insultos de um pequeno grupo que gritava
"Morram os marinheiros!". è absurdo, Senhores, que o escolhido da
Coroa tenha aceito, sem nenhuma reação a notícia da
morte aos portugueses presos na Vila. O suposto vencedor ficou passivo
a tudo isto preferindo cuidar de seus enfermos e roubar gados para alimentar
suas tropas. Três dias depois, antes que o sol chegasse às
culminâncias do céu, quando se preparava a refeição,
um alvoroço se fez no acampamento. Rápidos juntaram tudo,
montaram os cavalos, prepararam os varaus de redes para os enfermos, os
traçalhos de carne, prisioneiros e pedestres. Ao meio dia o Tombador
estava abandonado. O vencedor fugia. Poucas horas depois, a nossa tropa
reorganizada entrava em Campo Maior para nunca mais retroceder. Por fim,
Senhores, como última prova de que não fomos de fato vencidos,
estão algumas afirmações de Fidié transcritas
de "Vária Fortuna":
Diz-nos o
Governador das armas no Piauí, "julgando dever declarar que logo
depois do combate no Campo do Jenipapo, destroçado o inimigo perssegui-o
por duas léguas e até que anoiteceu, acampando junto à
Vila de Campo Maior".
Tal afirmação
só tem sentido na "Vária Fortuna" (documentário de
sua defesa) pois perseguir o inimigo duas léguas, não se
faria em uma hora; teria o retorno para sepultar os seus mortos, mesmo
que às pressas, porque estavam misturados a "muitos dos inimigos
mortos e feridos", teria que reorganizar a tropa e por em seguro "542 prisioneiros
bastantes armamentados" e, "ao anoitecer já estar acampando" junto
à Vila de Campo Maior que ficava a mais de uma légua do Campo
de Batalha.
Fidié
declarou mais que as nossas tropas eram "em número seis vezes superior"
à s suas. E sabemos que ele dirigia 1.500 homens armados. Apesar
de tanta gente ramada, como apenas 80 foram os feridos que caíram
em mãos? Pode ser? Mais absurdo é admitir que três
dias depois o suposto herói fugia para o Estanhado,
em pleno meio dia e sem almoço.
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Narrativa : Padre Cláudio Melo
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